Frases Soltas do Pensador (www.pensador.info)

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Éramos Dois



O problema é que a gente fica tentando contemporizar, jogar com o tempo, adiando decisões, enfim...empurrando com a barriga.
A gente sabe e está vendo que...digamos assim..."tal ciclo" acabou, não tem mais volta e qualquer tentativa na direção contrária ocasionará resultados desastrosos, perda de tempo, além de denotar uma clara fuga da realidade. 
Os olhos não querem ver, o coração arranja desculpas, o cérebro se recusa a decidir...afinal, "podemos ser amigos" ou "vou deixar a vida me levar" são desculpas que nos poupam de sermos taxativos e darmos um basta no que se desgastou, de liberar o armário das roupas velhas, que já não nos servem, para dar espaço às roupas novas que virão.
Entenderam? Deixar partir o que já esgotou o prazo de validade e se abrir para o novo.
Mas eufemismos e negações são inerentes ao ser humano e, junto à insegurança, ao conformismo, ao apego à zona de conforto, o revestem com uma falsa defesa que se propõe a esconder seu medo do desconhecido. " Deixa assim como está... "
Mas, aí é que está! Ledo engano! Isso só nos enfraquece mais, nos rouba a coragem, nos sublima e nos destrói.
Sempre chega o momento de dar um basta, de encarar a realidade, doa o que doer. Afinal, meus amigos, são duas máximas que sempre sustentei:
O remédio mais amargo é o mais eficaz,
E
Antes a punhalada, que mata de uma vez, do que o veneno que vai nos matando aos poucos.

O mais é como aquele conceito indiano: Maya. É pura ilusão.







"De repente do riso fez-se o pranto

Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento

Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama

De repente não mais que de repente

Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente


Fez-se do amigo próximo, distante

Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente."

(MORAES, Vinícius de. - Soneto de Separação)

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

O Fim

Ela o abraçou bem forte
Como se quisesse puxá-lo para dentro de si,
Na tentativa de fundir seus corpos em um só,
Em uma forma de guardá-lo em seu ser.
Mas os braços dele, inertes, ao longo do corpo,
E a frieza que dele emanava,
Ardiam em sua alma,
Como um estranho paradoxo que se criou
Naquele momento singular.
Sabendo ser aquela a partida,
Ela lutou contra a antítese que se formou,
O desejo insano de que ele ficasse,
Associado à certeza de que o melhor
Era que partisse...ela já não sabia.
Toda uma história, como um filme dramático,
Passou em sua mente...toda uma vida,
Momentos...
...não era como se ele estivesse partindo,
Era como se sua vida, junto àquele amor,
Estivesse se esvaindo...
Ela quis gritar, ela quis fincar as unhas em sua pele,
Maldizê-lo, atingí-lo, ferí-lo, expulsá-lo...
Ela quis explodir a muralha que havia em volta dele,
Fazê-lo reagir, 
Ser uma pessoa de verdade, 
Com sentimentos.
Mas, ela só conseguia verter silenciosas e dolorosas lágrimas.
Como um bolero clichê, uma poesia de rimas baratas,
Um melodrama desgastado...
...ela queria matá-lo dentro de seu peito 
e sentir-se morrer junto...
...tão perfeito: aquela que ela fora para ele,
Junto àquele que ele nunca pôde ser para ela...
...ambos unidos, estranhamente, em suas pequenas tragédias.
Ela sabia que aquele era o começo do seu inferno,
Ela precisava se lançar naquele abismo e enfrentá-lo,
Um inferno de desdém, frieza, desamor...
...ela precisava morrer um pouco para reviver depois.
Ela precisava morrer em cada verso
Da primeira e única poesia que escreveu para ele...
...ambos morreram nessas linhas.
E em outras linhas, outras poesias,
Algum dia, quando tudo passasse,
Ela ainda haveria de renascer,
Último paradoxo...cíclico...
...onde o começo vem a partir do fim.


"For this is the beginning
Of forever
And ever

It's time to move over
So I wanna be

I'm so tired of playing
Playing with this bow and arrow
Gonna give my heart away..."
-Glory Box - Portishead


segunda-feira, 5 de maio de 2014

Réquiem

À imagem idealizada,
Ao sonho acalentado,
Às lembranças eternizadas,
Às saudades alimentadas,
Às canções que foram ouvidas,
Infinitas vezes, anos a fio,
Às cartas e fotos,
Todas guardadas em um baú,
Às poesias que foram escritas,
À história que existiu,
Embora tenha se perdido,
À parte do meu eu
Que ainda vivia no que você tinha sido,
E, até mesmo,
Ao estranho que encontrei
No lugar do velho conhecido:
As exéquias,
A ode de despedida,
Última homenagem,
Justa e a tempo,
A tudo o que foi vivido
E não havia sido esquecido.
Sempre chega a hora, ainda que tardia,
De deixar partir os velhos fantasmas,
A nós acorrentados.
Adeus, descanse em paz.
Em seu epitáfio,
Os últimos versos,
A derradeira inspiração
Para o réquiem que encerra
Uma vida, um passado.