Frases Soltas do Pensador (www.pensador.info)

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Yo Volverei




longe da minha terra,
sou caminhante sem rumo,
árvore sem raiz.
longe de meu povo,
longe de minhas canções,
sem meu bailado,
sem o calor da salamandra
e o gosto do vinho em meus labios,
uma cigana solitária,
sem ter onde quedar-se,
quem eu sou? 
eremita perdida em suas andanças,
os passos que perdem-se
no vazio do espaço,
a solitude acompanhada pela saudade.
cigana...
bailando no vácuo do silêncio...
nada sou...
magia que dissolve-se no infinito,
olhar perdido no horizonte,
o desejo do regresso,
a certeza da volta...um dia...
quando voltarei?
pessoas que me esperam,
companheiros de caminhada,
a caravana que aguarda
a volta da filha amada.
cigana...
zíngara...
gitana...
eu vou, mas volto,
a dor que me acompanha
se desfaz na certeza, que não me deixa,
de que sei onde é meu lugar.
a vida que caminha em círculos,
mas ao ponto de partida acaba por voltar.
peregrina...
a filha que partiu, 
mas, um dia, vai regressar.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Conto: A Carta




     
    Olá,como tem passado?

   Espero que bem, porque, quanto a mim, tenho vivido minha vida...inclusive é o que tenho feito nesses últimos 12, quase 13 anos, de um jeito ou de outro.
   Tenho acompanhado seus passos, principalmente nos 8 primeiros anos, quando eu ainda o sentia tão presente e me sentia, ainda, tão vinculada a você.
   Vi que tentou buscar outros amores, vi que se decepcionou, vi quando tentou de novo e, ainda posso ver, você está em mais uma tentativa, a qual não compreendo, mas, também, não creio que vá te levar a algum lugar.
   Você foi meu primeiro namorado, meu primeiro amor, de fato, e, sei, sei porque ouvi muito de você: eu fui seu primeiro grande amor!
   Em uma época em que éramos, apenas, praticamente, duas crianças, inconseqüentes e cheias de sonhos, criando um mundo utópico, onde havíamos, apenas nós dois...apenas eu e você...e as inúmeras cartas que eu escrevia e as canções que você tocava ao violão, dedicando-as a mim...nós,tão jovens e idealistas, tecendo sonhos dourados...não...não eram impossíveis, apenas era cedo demais para torna-los reais.
  Mas a vida trouxe ilusões e, ao mesmo tempo, a realidade que recusávamo-nos a enxergar e nos direcionou, cada um, a rumos diferentes, linhas que difícilmente se encontrariam, mas, que pareciam seguir paralelas, pois, a cada acontecimento que sucedia-se a você, algo parecido acontecia comigo...vez ou outra o acaso nos reunia e nos fazia, intimamente, lamentar os anos que nos separaram.
  Ainda lembro da última vez em que o vi, anos atrás...do nervosismo que se estampou em seus olhos, das suas mãos trêmulas tentando acender o cigarro...eu nunca o havia visto fumando, mas você garantiu-me que o fazia desde que terminamos.
 Você ainda fazia parte daquilo que lamentei ter perdido, ainda era alvo do meu desejo secreto de ter você de novo, o fantasma que me perseguiu por anos e anos, não me deixando apaixonar, de fato,novamente, por ninguém.
  Eu sempre tive tantas coisas a te dizer, coisas que ficaram sufocadas por tanto tempo...sempre quis te contar que nunca joguei fora as cartas que você havia escrito, que ainda guardava suas fotos e os discos de onde tirava as canções que tocava para mim. Me recusei, por todos esses anos, a trancar nossas memórias no baú do esquecimento, alimentei-as e o venerei, como um deus ao qual eu devesse apresentar minhas penitências por tê-lo martirizado, um dia.
  Era o seu nome que eu chamava, sempre que algo me feria, me magoava, quando o desespero batia e eu pensava: "ele jamais teria feito isso a mim!".
  Quando eu sofria, eu acreditava que era por tê-lo feito sofrer algum dia e aceitava, resignadamente, o que eu julgava ser o tributo a ser pago por conta das lágrimas que custou a você, o amor que sentiu por mim.
  Amei-o, em segredo, tendo a mais absoluta certeza de que, talvez, você jamais tivesse deixado de me amar também, de que, se você pudesse deixar seu orgulho de lado, talvez pudesse se abrir para reencontrar esse amor que jamais saiu de dentro do seu peito.
  Entretanto, a dor que o inflingi, o transformou. Hoje, quase não posso reconhecer nesse homem frio e indiferente, o menino de sorriso meigo e carismático de outrora. Não mais vejo em seus olhos o ar sonhador e, sim, o ceticismo de uma pessoa que aprendeu a caminhar com as quedas que levou, pela vida. e como dói em mim saber que eu fui a causadora de muitas dessas quedas, dessas dores.
  Eu jamais pretendi ser o instrumento que o faria crescer, através da dor, jamais pensei em carregar o fardo de ser aquela por quem você se transformou, tão radicalmente, no que é hoje.
  Eu só queria ter a chance de olhar em seus olhos e te contar tudo, não digo "te explicar", pois não há explicação para o que houve, e, a passagem do tempo só mostrou que não houve culpado algum. Mas, penso que, sabendo que também sofri, você, talvez, possa deixar de me ver dessa maneira que ainda vê...como a pessoa insensível que ousou isolar você do mundo para, depois, destruir o que havia de melhor em você.
  Eu queria...queria ultrapassar a distância que existe entre nós, distância que se deixa enganar por nótícias virtuais que tenho de você, distância que não precisaria existir...queria transpô-la para dizer tudo o que está sendo dito aqui e te contar que as cartas e fotos e lembranças continuarão comigo, por onde eu for, jamais abrirei mão de mantê-las...quem sabe, um dia, eu possa mostrá-las a você e dizer o quanto me importei, por todos esses anos...quem sabe, um dia, possamos sentar e conversar...quem sabe, possamos nos encontrar além das coincidências...e, mesmo que eu note em você alguma tensão, fingirei que nada vi,  para não constrangê-lo...não vou desviá-lo do caminho que escolheu...apenas quero que saiba que, de uma forma ou de outra, você sempre esteve aqui...comigo.
  E assim seguirei...acompanhando seus passos à distância, enquanto ignora os meus.

                             Sempre, sempre, sempre...
                                                   ...
P.S.: Saiba que, ainda que você tenha rasgado todas as minhas cartas e fotos e tenha deletado da mente tudo o que se referia a mim, eu jamais tive coragem de fazer o mesmo com você, pois, houve uma vez em que tentei rasgar uma foto sua, mas minhas mãos quedaram-se inertes, deixando cair o retrato no chão...uma dor veio do fundo da minha alma e rasgou meu coração, pois senti que se me desfizesse de tudo o que guardei, estaria arrancando um pedaço de mim mesma, onde nossos momentos ainda vivem. e, descobri que, de nada adiantaria, destruir cartas, fotos, se jamais poderia destruir as memórias...jamais!

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Conto-Sol e Lua


 
    Tudo começou naquele exato momento em que ela cruzou aquele portão e o viu...era uma ensolarada tarde de outono, ele estava parado junto a uma fonte, o sol fazendo brilhar seus cabelos e queimando sua pele bronzeada...calça clara, sem camisa...os cabelos presos...tal visão a perseguiria pelo restante de seus dias.

      O primeiro impacto foi o de parar, ali mesmo, no portão, e contemplá-lo, estática, muda, como se o tempo tivesse parado naquele instante, como se o mundo estivesse em suspense, esperando o próximo passo...

     Ali, naquele momento, ela teve certeza: o queria, o amaria...por toda a sua vida, não importando o que pudesse acontecer.

    Ela adentrou o local e, a cada passo que dava, não conseguia desprender os olhos dele...para onde ele ia, seus olhos o seguiam, todos com ela falavam, mas sua mente estava presa na presença daquele homem...todo o seu ser pedia por ele, o exigia...seu olhar a hipnotizava, até mesmo seu jeito despojado, despreocupado, seu caminhar gingado a fazia enlouquecer em seu ritmo.
 
   Ela estava, definitivamente, enfeitiçada, ele havia roubado seu coração e, desde então, já tinha plena consciência desse fato, com a certeza de quem sabe que seu charme, uma vez lançado, jamais é desperdiçado.
 
   O tempo passou, a inevitável aproximação aconteceu e ela lançou o desafio...o esperaria naquela noite, em determinado local...ela surpreendeu-se com a rapidez com que ele aceitou.
 
   E, naquela mesma noite, ele cumpriu sua palavra e foi aquela, a primeira noite do resto de suas vidas.
 
  Sob a luz da lua cheia, um beijo selaria o que viria a ser algo constante em suas vidas...uma sede, uma vontade, a sensação de que um não poderia viver sem o outro, independente do que acontecesse. Ele já tinha alguém em sua vida, ela foi tendo outros, no decorrer de sua trajetória, mas ele sempre esteve ali...a voz rouca e quente a atormentar seus pensamentos, os braços que a puxavam para si, o calor daquele corpo que ela tanto desejava...não importava como, eles tinham um ao outro.
 
   Ele tinha total certeza do que ela sentia, ele estava seguro de que ela sempre o amaria e jamais conseguiria se prender, de verdade, a mais ninguém, o feitiço que ele havia lançado naquela tarde de outono estava surtindo efeito.
 
   Ela sabia que ninguém a beijaria como ele beijava, ninguém a faria perder a cabeça como ele fazia, em nenhum outro corpo ela sentiria prazer...
 
    Mas, quis a vida que seus caminhos seguissem paralelos, Sol e Lua que se encontram, apenas, em raros eclipses. A força da paixão que os unia esporádicamente...pelas madrugadas, os encontros tornavam provável o improvável...ele, o Sol, a aquecer a órbita dela, a Lua. Superfícies que se encontravam, almas que se mesclavam, corpos...corações...mais que proibido ou impossível...apenas paixão...amor!
 
   Não importava a distância que os separasse, ambos seguiam tendo urgencia um do outro, sede, fome, desejo...um sentimento que eles mantinham oculto, por força das circunstâncias, mas que ali estava e com eles seguiria, para sempre.
 
   Sol e Lua partilhando o mesmo espaço, mas, raramente se encontrando...atração mútua e irresistível...somente o universo saberia como, quando e onde seria o eclipse que os uniria novamente, ou, quem sabe, o fenômeno ou milagre que os faria pertencerem-se de fato, sem nenhuma sombra ou contratempo entre eles, para sempre...

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Simplesmente, Amor


fecho meus olhos,
para ver-te em meus pensamentos.
abro meu coração para encontrá-lo,
lá dentro,
entre saudades e um amor que persiste
e não me abandona jamais.


volto a um tempo,
onde eu o via bailando,
olhos brilhando na noite,
seu corpo movendo-se,
seduzindo-me,
um tempo em que eu o tinha,
ainda que pela metade,
de alguma forma, ainda era meu.

nunca quis exigir nada,
jamais pedi que se decidisse,
aceitei o que me oferecia,
ainda que fosse um final de noite
e seu coração dividido por duas.
ainda assim, eu o possuí...


não pretendo que se decidas,
não pretendo que a deixe,
apenas quero que permita
que eu seja os braços que te acalentam,
que me deixe enxugar suas lágrimas,
que encontre em mim o conforto,
que sua tormenta o faz necessitar.


não pretendo ser a lua
que ilumina suas noites,
apenas quero ser a estrela
que guia seus passos.
não pretendo ser seu maior sonho,
apenas quero sentir-me feliz,
ao vê-lo realizando seus desejos.


não pretendo ser a música
que acompanha seu bailado,
apenas quero ser a brisa
que irá te refrescar,
quando seu corpo estiver cansado.
não pretendo ser sua escolhida,
apenas espero que lembre-se de mim,
quando se sentir sozinho.


não pretendo ser a melhor das suas lembranças,
apenas quero que, ao deitar-se,à noite,
lembre-se daquela que te amou, sem nada pedir,
que se entregou, sem exigir,
daquela que se foi,
mas, mesmo distante, não deixou de sentir
esse amor que a acompanha, que com ela irá,
por onde quer que ela vá,
por onde ela seguir.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Crônica-Rendición



Ela sente como se não pudesse dizer não, como se jamais pudesse se recusar a atender a qualquer pedido que ele faça.
É impressionante o poder que ele tem sobre ela...como sua voz, seus olhos, seu desejo a possuem...o desejo dela confunde-se com seu desejo, o querer dela mescla-se com o seu querer...uma estranha simbiose que a mantém fascinada por esse homem.
Mesmo após o físico ter se transformado em platônico, mesmo quando o contato de ambos se dá de forma mais virtual do que real, mais espiritual do que material...ela sente seu magnetismo à distância e, em seu olfato, o cheiro dele, máscula essência, que a subjuga.
Instinto...domínio...posse...querer sem possuir...ter, sem exigir mais do que se consegue...
A qualquer momento, durante o dia, ou durante a noite, ela chega a sentir sua presença, tão real, concreta e palpável, quase como se pudesse tocá-lo...e isso a enlouquece, a tortura, porque ela sabe que há muito mais coisas que se interpõem a ambos do que coisas que poderiam (e deveriam), de fato, uní-los.
Ainda assim, ela sabe que, também, exerce algum poder sobre ele, que algo o mantém sempre pronto a recebê-la em seus braços fortes...que sua masculinidade só se completa em contato com a doce feminilidade dela...que ele quer, ele exige, ele não vive sem ela.
Um jogo sem perdedores ou vencedores, uma guerra que só eles dois sabem como e onde travar...

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Crônica-Cismas




Ela queda-se em cismas, enquanto seus dedos correm o teclado transformando em palavras tudo o que ela sente.
Depois de tanto tempo escondendo-se em sua complexidade, ela começa a sentir-se perdida, sem saber, exatamente, para onde ir.
Em seu coração, guardado como um tesouro, um sentimento que nunca a deixou, que a pegou de surpresa, um dia, mas ali montou seu acampamento...coração cigano, alma cigana...evidentemente, amor cigano.
Ela busca na tela do monitor imagens daquele que, um dia, fora tão real e concreto para ela. Naqueles tempos, bastava estender suas mãos e ela poderia tocá-lo, uma palavra de consentimento e ele poderia possuí-la.
Ele que tomou posse de seu ser, sua mente, seus pensamentos, sua alma...olhos que ela ainda vive a buscar, beijos que ela anseia por sentir novamente...ele...totalmente senhor da vida dela.
Ela sente que não poderá resistir e essa rendição dá-lhe uma sensação de impotência, desespero...uma paixão avassaladora que mais dói do que consola...
O querer intenso e urgente...aqui, agora...mas, ela sabe ser isso impossível.
Mais um dia em sua vida...entre fadas, ciganas, feiticeiras...também entre arcanjos!
Sozinha em suas cismas...como sempre!